domingo, 29 de abril de 2007

Insônia


Foto Margarida Delgado.

Outra noite de insônia... Aquilo já estava virando rotina. Ela levantou-se da cama e foi até o espelho do banheiro espremer uns cravos na base do nariz.
De repente parou, observou o contorno dos olhos e filosofou sobre a inexorabilidade do tempo e de sua relatividade. Quando presta-se atenção ao tempo e aguarda-se algo, cada minuto parece uma eternidade. Mas, quando distraímos, nos damos conta e às vezes já se passaram dez, vinte anos.
Ela encarou-se de novo no espelho e pensou em como tinha andado distraída. Ainda outro dia olhara-se no espelho e tinha vinte anos e, hoje, o rosto de uma mulher de quarenta a contemplava.
"_ Oi , estranha!"- arreganhou os dentes para a própria imagem, fazendo uma careta enlouquecida de louca furiosa e assustou-se.
Imediatamente transformou os esgares ensandecidos numa máscara calma e tranqüila. Deu um sorriso benigno para si mesma e pensou em como aquele sorriso era perfeito para um comercial de margarina ou de fraldas descartáveis... Só estava faltando o olhar canino: resignado, compreensivo e amoroso.
Pronto! Estava perfeito. "_ Que grande atriz o mundo está perdendo..."- pensou. Nem mesmo o mais experiente psiquiatra perceberia, por detrás daquele rosto bondoso, tranqüilo e forjadamente tolo, o leve brilho irônico e desequilibrado da louca do espelho.
Passou um tônico no nariz avermelhado e pensou que precisava dormir, ou então, no final do mês, estaria com umas oito ou nove rugas a mais e ela não estava disposta a assemelhar-se a um maracujá de gaveta aos quarenta.
Foi para o quarto e deitou-se. Apagou a luz e nada. Tornou a acender a luz e, embora já fosse terça-feira, resolveu dar uma olhadinha no intocado jornal de domingo, para chamar o sono.
As denúncias de mordomias e safardagens perpetradas pela classe dominante, em confronto com a foto de um velho aposentado, com o rosto ensangüentado, por participar de manifestação pelo reajuste de pensões, deixou-a consternada e triste.
Com os olhos marejados de lágrimas, pensou em como o poder era podre ( Podres Poderes, Caetano!) e em como transformava seres humanos em bestas ávidas e insensíveis.
"_ Preciso comprar alguma literatura sobre anarquismo"- pensou.
Pegou então o caderno de Economia e, imediatamente, lembrou-se da imoral taxa de juros, de quase 12%, cobrada pelo seu cartão de crédito e, de que se parcelasse o pagamento do abundante, fútil e supérfluo material escolar pedido pelo colégio das crianças, fatalmente entraria num buraco negro de dívidas impagáveis.
"_ Céus! Como vou descolar essa grana absurda!? Pior que tem também o IPTU e o resto das dívidas do Natal... "- e, imediatamente, pensou que precisava jogar na Loto ou na Sena, pois era urgente resolver esses problemas comezinhos.
Foi na gaveta, pegou alguns volantes de jogo e, olhando aquelas dezenas de números, sentiu-se inteiramente despreparada para marcar os números vencedores.
"_ Quem sabe um pouco de radiestesia não possa me ser útil?"- pensou.
Então, pegou o seu pêndulo de cristal como quem pega uma bóia salva-vidas.
Depois de mais de uma hora, o pêndulo indeciso, insistindo em apontar-lhe uma infinidade de números, ao invés dos desejados, sentiu que a claridade da manhã penetrava em seu quarto, pelas frestas da veneziana. Estava amanhecendo e suas pálpebras estavam ficando pesadas, pesadas...
"_ Amanhã garimpo os números"- disse para si mesma.
Colocou no gravador a fita de relaxamento, apagou a luz do abajur, colocou a máscara de dormir, deitou-se de bruços e adormeceu com a certeza de que aquela noite de insônia tinha-lhe deixado, pelo menos, uma ruga a mais na encadernação da sua vida.

Eliane Stoducto

Poemas

Quixotismo

Adaga cravada no peito

o sofrimento,
grotescamente,

cavalga à deriva
combatendo
tolamente
antigos
moinhos
de vento

profana

transgredir normas
combater titãs
pular as cercas
e seqüestrar
todas as maçãs


natal negro

minha
árvore de natal
ao tem presente
aqui tudo vai mal
com a tua ausência...


pensando, pensando...

o homem que acha
que pensa
que pensa
e não ouve
e não age
só pensa que pensa...


Foto Anne Brigman.

estrepulias

quem brinca
se estrepa
quem não brinca também
então brinquemos
e trepemos muito
meu bem

2 comentários:

Mulher na Janela disse...

os poemas "profana" e "estrepulias" são perfeitos!
de uma sagacidade poética incrível, menina!
parabéns!

beijo grande!

Vieira Calado disse...

Minha 1ª visita.

Achei o blog interessante e variado.

Saudações poéticas