sexta-feira, 20 de abril de 2007

'Brilhando feito uma estrela'

Ave Estranha

Ave triste
sobrevivo
banhando
de lágrimas
o planeta...
Ave estranha
sobrevôo
e transformo
a terra
em mar...


Cálida




Venha banhar-se
nas águas cálidas
do meu desejo

singrar meu âmago
me navegar...

Colcha de retalhos

A felicidade é uma colcha de retalhos
que eu vou costurando devagar
tecendo-a com as linhas das tristezas
dos risos e das lágrimas do olhar


Cócegas

para o meu filho Juliano

A mão de minha mãe
faz cócegas em meus braços
A brisa que entra pela janela
faz cócegas em meu rosto
enquanto sinto e brinco
os homens trabalham...

Cósmica



Na cósmica noite fria
Vagando qual um cometa
Minha paixão viaja
Brilhando feito uma estrela
Perdida na imensidão...


Cria Cuervos

quando se cria
corvos

eles não só
te arrancam
os olhos

como também
te ferem

e dilaceram
a alma...

Dança

Dança
doida
da esperança

verdecendo
o deserto

vicejando
o secreto

movimento
do universo

Dança Aflita

para Vito Cesar

Dançamos nós
A dança dos casais
A dança de animais
Lagos de vinho
Cio

Dançamos mais
A dança dos aflitos
A dança dos malditos
Poças de sangue
Sina

Rodopiei
Na dança dos vampiros
Até cair exangue
Fado
Destino
Frio

Densa, quente...

densa, quente
transbordante

fria, chata e
anarquista

prato, talher,
guardanapo

mesa posta
pra analista

Detesto jogos...

Detesto os jogos da vida
sou avessa às disputas
Detesto emular com o inimigo
trauma antigo
secular

Gosto do olho no olho
pra começar a questão
gosto dos toques, dos gestos
me exponho
à rejeição

Suporto bastante as falhas
pois sou infalível em falhar
agüento os porres alheios
permito-me
embriagar

Por isso às vezes me tolho
Por isso às vezes me encolho
E fico a ruminar
Cogito, reflito, penso
E começo a gargalhar.


Poemas

Dragão

O dragão - sua língua
e seu hálito ardente -
derrete as entranhas
e desperta a serpente...

Em desalinho...

dias dementes:
mente oca
lábio amargo
alma louca
boca silente

Enfim só

Não deu certo o teu encanto, a tua lábia
Aprendi, hoje estou sábia
E nem que o Papa sambe de baiana
Vou rebolar na tua cama...
Acabou, meu amigo,
Aquele amor ficou antigo,
Deu bolor...
Estou de bem comigo.
E isto, agora, já não é tão difícil...

Eros caótico

Este meu Eros caótico
às vezes tão pacato
em certos dias
traveste-se
de feroz Thanatos

Espasmo

Esparjo
fluidos

ensaio
vermelhos

implodo
de gozo

explodo
em azuis.

E pasmo!


Aos seis meses...

La Niña

Rio de Janeiro, dezembro, quase verão. Tateio à procura de uma colcha para me cobrir e acabo despertando com a aragem fresca entrando pela janela. Como que por milagre está fresquinho. Parece uma manhã de maio. Agradeço aos deuses, à Deusa e, especialmente, à La Niña.
Pelo que andei lendo nas previsões de tempo, aquele nefasto El Niño, causador de tanta desgraceira parece que foi embora de vez. Em seu lugar chegou ela - La Niña.
Dizem os noticiários meteorológicos que ela é de paz, tranqüila e que vai nos abençoar com verões frescos, chuvas no Nordeste e muitos outros fenômenos climáticos bons e benignos.
Eu rezo para que eles estejam certos. Certíssimos, de preferência. E rezo também para que as transformações climáticas se estendam a outras esferas... Pois acho que todo o povo da Terra está mais é precisando de uma Grande Mãe, acolhedora e terna, que abra seus braços, nos abençoe, afague e conforte, dando-nos força, lucidez e esperança para enfrentarmos e vencermos tanta injustiça, tanta falta de escrúpulos, tanta luta pelo poder.
Quem sabe ela não consiga lavar mágoas, purificar mentes e corações e insuflar neles alguma generosidade, solidariedade e empatia?
Seria um belo presente de Natal para o Planeta!
Seja benvinda Niña!
Proteja-nos, ó, Grande Mãe!

Eliane Stoducto
Publicado na CRÔNICA DO DIA, em 25.dezembro.1998

4 comentários:

Maju Costa disse...

OBRIGADA ADELAIDE

Você tem escolhido poemas e textos capazes de transmitir as mil e uma e, ao mesmo tempo única, face da nossa Li. Foi com muita emoção que a fui reencontrando em cada escrito também desses últimos dias, com sua capacidade de metamorfosear a dor em alegria e beleza. Que bela maneira de comprovar o quão viva ela permanece. Se a criação não morre, a criadora também não.

Edson Marques disse...

Meu aplauso!




.

mariza disse...

Adelaide querida,

grata por compartilhar com a gente toda a beleza Li.
muitos beijos.

mariza

mariza disse...

errata:
onde está escrito 'toda a beleza Li.', leia-se 'toda a beleza da Li.'

mais beijos.

mariza